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Ciência & Saúde•24 de setembro de 2026•Fonte: G1

Médica deixa cirurgia geral após diagnóstico tardio de autismo

Aos 33 anos, cirurgiã descobre o autismo após esgotamento severo e redireciona carreira para a criação de conteúdo.

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Redação O Autista
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Médica deixa cirurgia geral após diagnóstico tardio de autismo

Foto: O Autista / Gerada por IA

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Sobrecarga sensorial e camuflagem social levaram profissional a redefinir sua trajetória na medicina

O esgotamento crônico que resiste ao descanso, somado ao desconforto extremo provocado por luzes hospitalares, alarmes sonoros constantes e odores característicos de antissépticos, revelou uma realidade silenciosa para uma cirurgiã brasileira. Aos 33 anos, Krícis recebeu a confirmação diagnóstica de Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 de suporte. A identificação formal encerrou mais de dez anos de tratamentos ineficazes para quadros de ansiedade e depressão, levando a médica a tomar uma decisão drástica: abrir mão do centro cirúrgico para preservar sua saúde física e mental.

Mesmo obtendo excelente desempenho acadêmico na faculdade de medicina e concluindo uma das residências médicas mais concorridas do país, a profissional enfrentava desgastes sensoriais e cognitivos severos no dia a dia hospitalar. Com a necessidade contínua de ignorar sinais básicos do próprio corpo — como sede, fome e pausas essenciais — durante as operações, a médica optou por se afastar dos procedimentos invasivos. Agora, ela planeja utilizar sua bagagem clínica e sua nova vivência neurológica para produzir conteúdo educacional de saúde nas redes sociais, buscando uma rotina mais regulada e com menos sobrecarga ambiental.

O que mudou?

A jornada percorrida pela cirurgiã expõe uma assimetria comum na avaliação do neurodesenvolvimento em adultos. Conforme apontam dados do Programa dos Transtornos do Neurodesenvolvimento da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), cerca de 47% das mulheres recebem ao menos um laudo psiquiátrico incorreto antes da detecção do autismo, índice que cai para 27% entre os homens.

Especialistas explicam que esse descompasso ocorre primariamente devido à camuflagem social, fenômeno também conhecido como masking. Mulheres autistas frequentemente absorvem expectativas comportamentais externas desde a infância, adotando scripts sociais que mascaram os traços clássicos descritos nos manuais como o DSM-5. Além disso, costumam internalizar angústias e dificuldades adaptativas, adiando a percepção pública de sofrimento até que situações de alta exigência funcional desencadeiem o chamado burnout autista.

Importante: Traços como hipersensibilidade sensorial a ruídos e texturas, rigidez cognitiva diante de imprevistos e desgaste intenso após interações não são meras peculiaridades de personalidade quando causam prejuízos funcionais concretos na saúde, no trabalho e nas relações.

Impacto para a comunidade autista

A história de Krícis reflete o cenário de milhares de adultos autistas que passam décadas operando no limite de suas capacidades adaptativas sem respaldo adequado. O diagnóstico tardio não altera a competência profissional de um indivíduo, mas expõe que a ausência de acomodações sensoriais reais em ambientes de trabalho convencionais pode inviabilizar carreiras inteiras.

A transição de carreira da médica reforça a importância da psicoeducação, da avaliação diagnóstica especializada em mulheres e da conscientização institucional sobre neurodiversidade. Identificar o espectro oportunamente permite estabelecer estratégias de autorregulação, ajustes de rotina e prevenção de colapsos neurofuncionais graves, legitimando limites individuais sem culpa.


Fonte: Matéria adaptada com base na publicação do veículo G1.

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