💙 Espaço dedicado ao acolhimento, informação baseada em ciência e direitos autistas.
O Autista
Ciência & Saúde•24 de agosto de 2026•Fonte: A Crítica

TDAH antes dos 5 anos? Neurologista alerta sobre os riscos do diagnóstico precoce

Especialista adverte que comportamentos infantis agitados podem ser apenas imaturidade neurológica e exige rigor clínico.

OA
Redação O Autista
Ver matéria original →
TDAH antes dos 5 anos? Neurologista alerta sobre os riscos do diagnóstico precoce

Foto: O Autista / Gerada por IA

🎧

Ouvir este artigo

Leitura acessível por voz

A linha tênue entre o desenvolvimento típico e o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade na primeira infância

Quando uma criança pequena apresenta agitação constante, dificuldade de focar em uma brincadeira ou até mesmo desafios de adaptação nos primeiros anos da pré-escola, é natural que um sinal de alerta se acenda nas famílias. A busca por respostas rápidas, no entanto, frequentemente esbarra na complexidade do desenvolvimento humano. Fechar um diagnóstico de Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em crianças menores de cinco anos é uma decisão clínica que exige extrema cautela, sob o risco de patologizar comportamentos que são normais para essa fase da vida.

O alerta vem da própria comunidade médica, que busca frear a ansiedade por rótulos precoces que podem levar a intervenções inadequadas. Durante a primeira infância, o cérebro passa por um período de adaptação e evolução neurológica muito acelerado, o que pode mimetizar os sinais típicos de desatenção ou hiperatividade.

O que mudou ou o que a pesquisa aponta?

Segundo o médico neurologista e mestre em Ciência do Comportamento, Fernando Menezes, suspeitar de TDAH em pré-escolares, especialmente naqueles com menos de dois anos, não é uma conduta recomendada. Nessa fase, a imaturidade do sistema nervoso central é a regra, não a exceção. Muitos padrões de comportamento observados pelos pais e professores podem ser transitórios, reflexo da idade ou até mesmo indicativo de uma falta de estímulos ambientais adequados, e não de uma condição neurodivergente inerente.

A posição é endossada pela Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI), que desaconselha o fechamento de diagnósticos de TDAH nessa faixa etária justamente pela dificuldade de separar o que é fase do que é traço neurológico. Além disso, o especialista enfatiza que o baixo rendimento escolar isolado jamais deve ser o único pilar para validar a presença do transtorno. A avaliação médica não deve ser pautada por “achismos”, mas sim por critérios rígidos, anamnese aprofundada e ferramentas cientificamente validadas em nível internacional.

O debate tem sido levado diretamente à formação dos novos neuropediatras. Em um recente módulo de pós-graduação promovido pela Afya Educação Médica — instituição que tem buscado suprir a crescente demanda por especialistas no Amazonas e no Brasil —, os alunos foram orientados a desenvolver um raciocínio crítico aguçado. A recomendação é clara: um diagnóstico não pode ser meramente aceito com base na percepção subjetiva de terceiros ou em laudos prévios mal fundamentados.

Importante: “Eu não posso achar que o TDAH é baseado na minha percepção, na subjetividade de quem examina. Existem critérios e eles são baseados em estudos validados internacionalmente. Apenas um baixo rendimento escolar não é sinônimo de transtorno”, destaca o neurologista Fernando Menezes.

Impacto para a comunidade autista e neurodivergente

Para as famílias de crianças atípicas ou que estão em processo de investigação de transtornos do neurodesenvolvimento (como autismo e TDAH), esse alerta médico traz um alívio e uma importante diretriz de conduta. Ele reforça que o tempo da criança precisa ser respeitado e que a pressa por um laudo não deve atropelar a necessidade de uma observação clínica madura e baseada em evidências.

Na prática, isso significa que pais e cuidadores de crianças pequenas devem focar muito mais em proporcionar um ambiente rico em estímulos positivos e acompanhamento multidisciplinar de suporte do que em buscar medicação ou intervenções severas precoces voltadas especificamente para o TDAH.

O aviso também serve de bússola na hora de escolher profissionais de saúde: um bom neuropediatra será aquele que investiga o contexto, questiona as facilidades dos diagnósticos “de gaveta” e atua com base em diretrizes científicas sólidas. Entender as nuances do desenvolvimento infantil ajuda a reduzir o estresse parental e garante que a criança receba o apoio certo, no momento exato em que seu cérebro estiver pronto para ser corretamente avaliado.


Fonte: Matéria adaptada com base na publicação do veículo A Crítica.

📲 Compartilhe esta matéria: