O diagnóstico do feed: como o consumo de vídeos curtos impacta a saúde mental
Especialistas alertam para os riscos do autodiagnóstico de TDAH e autismo impulsionado por tendências e conteúdos superficiais nas redes sociais.

Foto: O Autista / Gerada por IA
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A popularização de testes rápidos e trends em plataformas de vídeos curtos acende o alerta de médicos e psicólogos para a banalização de critérios clínicos rigorosos.
A busca por respostas sobre condições de saúde e neurodivergência tem encontrado um terreno fértil nas redes sociais. Com marcas expressivas de engajamento — como a hashtag sobre lipedema, que ultrapassa centenas de milhares de publicações —, a superexposição de temas médicos em plataformas de vídeos curtos tem levado um número crescente de usuários ao autodiagnóstico. Na área da saúde mental, o cenário preocupa profissionais devido à proliferação de diagnósticos precipitados e imprecisos de condições como o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) e o Transtorno do Espectro Autista (TEA).
Entre os formatos mais difundidos nas redes estão os vídeos de gamificação clínica, onde os usuários são incentivados a abaixar os dedos caso se identifiquem com comportamentos genéricos, tais como esquecimento, desorganização ou timidez. Ao final do vídeo, sugere-se de maneira simplificada que a pessoa se enquadra em algum transtorno neurodesenvolvimental. No entanto, a avaliação psicológica e psiquiátrica exige rigor e contextualização individualizada.
O que mudou ou o que a pesquisa aponta?
A proliferação de conteúdos informais tem sido associada ao aumento exponencial na procura por avaliações e na emissão de laudos em diversos países. Na Alemanha, dados da saúde pública apontam que os novos diagnósticos de TDAH em adultos subiram de 8,6 para 25,7 a cada 10 mil indivíduos no período entre 2015 e 2024. Embora parte desse crescimento reflita a identificação de casos historicamente subnotificados, médicos destacam a necessidade de cuidado para que comportamentos cotidianos não sejam indevidamente medicalizados. Para o diagnóstico de TDAH, por exemplo, é indispensável comprovar que os prejuízos funcionais já estavam presentes desde a infância.
No âmbito do autismo, a expansão das fronteiras de identificação também traz debates relevantes. No Reino Unido, dados do serviço público de saúde (NHS) indicam que a prevalência diagnosticada passou de 0,1% em 1998 para 1,33% em 2024. Especialistas como a psiquiatra alemã Uta Frith chamam a atenção para o risco de que quadros leves de ansiedade social sejam confundidos com o espectro sem uma investigação clínica profunda, o que pode fragmentar a compreensão pública sobre as diferentes necessidades de suporte dentro do TEA.
A desinformação e o autodiagnóstico sem respaldo técnico também afetam a saúde física, como no caso do lipedema, em que a promessa de soluções rápidas na internet frequentemente resulta no uso de tratamentos sem comprovação científica.
Importante: A identificação de traços comportamentais nas redes sociais não substitui a consulta com profissionais especializados. O diagnóstico de condições como TEA e TDAH requer avaliação clínica detalhada e histórico de vida estruturado.
Impacto para a comunidade autista
A disseminação de informações superficiais nas redes traz um duplo impacto para a comunidade neurodivergente. Se por um lado contribui para reduzir o estigma e incentivar a busca por apoio, por outro, a banalização dos critérios diagnósticos pode confundir a percepção pública sobre as especificidades do espectro. Isso afeta diretamente o entendimento da sociedade sobre as diferentes intensidades de suporte que cada autista necessita no dia a dia, desde adaptações escolares até auxílio em atividades da vida diária e cuidados em saúde. O acompanhamento multidisciplinar especializado permanece como o único caminho seguro para o diagnóstico preciso e a garantia de direitos e assistências adequadas.
Fonte: Matéria adaptada com base na publicação do veículo Diário do Rio.
